
(Conversa entre o Sr. Toru Okada de meia idade (TO) e uma jovem de 15 anos (J) num jardim privativo e degradado nas traseiras de um prédio onde ambos são moradores e vizinhos).
J - Estás aí em baixo, não estás? Sei que estás aí. Então não me respondes?
TO - Sim, estou aqui.
J - Que diabo fazes aí?
TO - Penso.
J - Não percebo. Desde quando é que é necessário descer ao fundo de um poço para pensar? Imagino o desconforto que isso deve representar, já para não falar nas chatices!
TO - Em contrapartida, ajuda uma pessoa a concentrar-se. Está escuro, fresco, em silêncio.
J - Costuma dar-te muitas vezes para aí?
TO - Nada disso. É a primeira vez na vida. Quero dizer, a primeira vez que desço ao fundo de um poço.
J - E está tudo a correr bem? Estás a conseguir pensar, aí enfiado?
TO - Ainda não sei. Ainda estou a ver como é que a coisa funciona.
(...)
J - Escuta.
TO - O que é?
J - Se os homens vivessem eternamente, sem nunca desaparecerem deste mundo, sem nunca envelhecerem, nem perderem a saúde, acreditas que se davam ao trabalho de queimar os neurónios a pensar nisto e naquilo, como nós fazemos? Em filosofia, religião, psicologia, lógica, literatura. (...)
Quem é que se daria ao trabalho de pensar a sério sobre o facto de estar vivo, se soubesse que continuaria a viver tranquilamente para sempre? Ou então, mesmo que a necessidade de reflectir fosse real, o mais certo era as pessoas acabarem por dizer: "Tudo bem, ainda tenho muito tempo pela frente. Deixo isso para mais tarde."
As coisas não são assim. Temos obrigação de pensar neste instante, aqui e agora.
(excerto de "Crónica do Pássaro de Corda" de Haruki Murakami).
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